Falta de noção de perigo no autismo: por que acontece e como manter a criança segura
Entenda os motivos por trás da dificuldade de reconhecer riscos no autismo e aprenda estratégias práticas e acolhedoras para garantir segurança.
Publicado em 15/12/2025 por Michele Leite
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Ensinar habilidades do dia a dia como colocar os sapatos, vestir uma camiseta, lavar as mãos ou tirar uma jaqueta, pode parecer algo simples para nós, adultos. Fazemos tudo isso automaticamente, sem pensar nos pequenos passos que compõem cada tarefa.
Mas para a criança autista, que tem um estilo de processamento muito mais detalhado e menos automático, essas ações podem ser extremamente complexas se apresentadas de uma vez só.
Nesse artigo eu quero compartilhar uma metodologia que eu aprendi num workshop e que transformou a forma como eu ensino essas habilidades para o meu filho Noah.
Quando queremos ensinar uma habilidade nova, precisamos dividir essa habilidade em pequenas etapas, como se fossem degraus.
Cada degrau representa uma parte da ação, que parece simples para nós, mas que faz toda a diferença na aprendizagem da criança.
Por exemplo, se o objetivo é ensinar a colocar a meia, a ação inteira pode ser dividida em quatro passos:
Segurar a meia
Abrir a meia
Encaixar na ponta do pé
Puxar a meia para cima
Nós, adultos, fazemos isso automaticamente, sem pensar. Mas para a criança autista, apresentar a tarefa completa de uma só vez pode ser complexo demais, frustrante e até desmotivador, ela tenta, não consegue, e desiste.
Quando nós dividimos em pequenas etapas, criamos um caminho possível.
Essa metodologia nada mais é do que ensinar uma habilidade de trás para frente, ou seja, começando pelo último passo.
Essa técnica se chama “encadeamento reverso” (backward chaining) e é muito usada em abordagens científicas como ABA e TEACCH.
👉 Como funciona
Você vai dividir a habilidade que você quer ensinar em etapas, depois você vai ajudar a criança a fazer todos os passos (geralmente fazemos por elas) e vai deixar o último passo para ela fazer, ou seja, a criança vai concluir a tarefa.
Seguindo o mesmo exemplo da meia, seria assim:
Você segura a meia
Você abre a meia
Você encaixa a meia na ponta do pé da criança
E a criança puxa a meia para cima
Desta maneira, a criança sempre termina com sucesso, e essa sensação de conseguir é poderosíssima.
Com o tempo, quando a criança já domina bem o último passo, você passa a deixá-la fazer os dois últimos: encaixar na ponta do pé puxar para cima. Depois, os três últimos passos e assim sucessivamente até que ela seja capaz de fazer tudo sozinha.
🧠 Por que isso funciona tão bem para crianças autistas?
Existem três razões principais, todas relacionadas ao modo como o cérebro autista funciona:
1️⃣ O pensamento autista é mais literal e detalhado
Quando a criança realiza o último passo, ela vê o resultado final. Isso reforça a autoconfiança e ajuda o cérebro a entender o objetivo da ação.
2️⃣ O cérebro autista precisa de previsibilidade
Cada etapa clara reduz a carga sensorial, ansiedade e confusão. A criança sabe exatamente o que esperar.
3️⃣ O reforço positivo vem no momento certo
Como ela finaliza a ação, ela experimenta a sensação de sucesso, o que aumenta o interesse em tentar mais
É muito importante que enquanto você ensina e executa a tarefa, que você também narre cada etapa:
“Agora a gente abre…”
“Agora encaixa…”
“Agora puxa!”
Criar sequências visuais com figuras ou fotos reais também podem ajudar muito, já que no autismo, o apoio visual:
reduz ansiedade,
aumenta a compreensão,
ajuda no planejamento,
e torna a atividade mais previsível.
O visual é mais “concreto”, e o cérebro autista responde muito bem a isso.
Outro ponto importante é entender que cada micro tentativa conta.
Talvez no começo a criança não demonstre interesse, só observe você e se recuse a fazer. Mas cada pequeno passo já é uma conquista, mesmo que seja só a observação.
Celebrar essas pequenas vitórias fortalece:
autoestima,
motivação,
e vínculo com o adulto.
Mesmo que demore meses, e a verdade é que na maioria das vezes demora mesmo, com paciência e constância, a criança vai se interessar e aos poucos a autonomia começa a aparecer.
Depois que aprendi essa lógica, percebi que posso aplicá-la em praticamente qualquer habilidade:
colocar sapatos;
lavar as mãos;
tirar a jaqueta;
guardar brinquedos;
escovar os dentes;
vestir roupas;
comer sozinho.
Crianças autistas também podem aprender, mas precisam que a gente ensine de forma clara, estruturada e respeitosa.
Dividir a habilidade em etapas, ensinar de trás para frente, usar apoios visuais e comemorar cada tentativa não é apenas uma técnica, é uma forma de olhar para a criança com mais empatia, acolhimento, paciência e compreensão.
E quando ensinamos assim, a autonomia floresce e é lindo de ver.
Com carinho,
Michele Leite
Mãe do Noah e sua companheira de jornada 💙