O que é autorregulação no autismo e por que ela é tão desafiadora
Entenda como o corpo e o cérebro da criança autista se organizam e como os adultos podem ajudar nesse processo.
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Se você convive com uma criança autista, provavelmente você já viveu isso: dias em que tudo parece fluir, seguidos de fases em que habilidades que pareciam conquistadas parecem “sumir”.
Quando isso acontece nós sempre nos questionamos: “será que ele regrediu?”, “será que eu fiz alguma coisa errada?”
Entender que o desenvolvimento não acontece em linha reta, e que no autismo, isso é ainda mais evidente, é fundamental para sentirmos menos culpa e mais segurança.
Desenvolvimento não linear significa que a evolução não acontece de forma constante, crescente e previsível. Em vez de uma linha reta sempre subindo, o desenvolvimento acontece em:
avanços,
pausas,
saltos,
períodos de reorganização,
e até aparentes retrocessos.
E isso é parte natural do processo.
No autismo, o cérebro processa o mundo de forma diferente.
O desenvolvimento acontece em várias áreas ao mesmo tempo (comunicação, sensorial, emocional, social, motora), e nem sempre essas áreas evoluem juntas.
Alguns fatores que influenciam essas oscilações:
O processo de desfralde é um dos melhores exemplos para entendermos, na prática, como o desenvolvimento não linear funciona.
No início, a criança:
parece não entender o processo;
faz xixi e cocô na roupa repetidas vezes;
não avisa;
não demonstra consciência corporal clara.
O processo costuma ser longo, cansativo e, muitas vezes, frustrante para nós pais. Dá a sensação de que nada está funcionando e, em muitos momentos, dá até vontade de desistir.
Mas o que muitas vezes não enxergamos é que, enquanto parece que a criança “não está aprendendo”, o cérebro está trabalhando intensamente.
Para que o desfralde aconteça, a criança precisa integrar várias habilidades ao mesmo tempo:
perceber os sinais internos do corpo;
entender o que aquela sensação significa;
associar a sensação ao banheiro;
interromper o que está fazendo;
lidar com a transição;
seguir uma sequência de ações;
se regular emocionalmente.
No autismo, essas habilidades não amadurecem todas juntas. Elas vão sendo construídas aos poucos, internamente, mesmo que isso ainda não apareça no comportamento.
E então, muitas vezes, acontece algo que parece “mágico”: de repente, a criança entende, assimila o processo e os acidentes diminuem ou desaparecem.
Isso não é mágica. É integração neurológica. O aprendizado estava acontecendo o tempo todo,apenas não estava visível ainda.
Muitas vezes, o que parece um retrocesso é apenas o corpo dizendo: “Eu preciso de um tempo para integrar tudo isso.”
Uma criança pode:
falar mais em uma fase e menos em outra;
ficar mais independente e depois precisar de mais ajuda;
se auto regular melhor por um tempo e depois ter crises mais frequentes.
O que foi aprendido não se perde, apenas pode ficar temporariamente inacessível.
E esse é um dos pontos mais difíceis de confiar: o desenvolvimento não para só porque não estamos vendo resultados imediatos.
O cérebro continua trabalhando, integrando, organizando e criando novas conexões.
Quando a criança parece “andar para trás”, o que ela mais precisa não é de cobrança, mas de segurança.
Algumas atitudes que fazem toda a diferença:
manter a rotina o mais previsível possível;
reduzir exigências temporariamente;
oferecer mais apoio emocional;
reforçar o que a criança já consegue;
Cabe a nós, pais, termos a sensibilidade de perceber essas fases e oferecer o suporte que a criança precisa.
Quando aprendemos a olhar para o desenvolvimento como um processo, tudo muda.
Passamos a:
valorizar pequenas conquistas;
respeitar os dias difíceis;
entender que pausa também é avanço;
confiar mais no processo.
O desenvolvimento não é linear, ele é vivo e dinâmico.
Com acolhimento, constância e respeito, ele acontece, talvez não da forma que imaginamos, mas da forma que a criança consegue.
Com carinho,
Michele Leite
Mãe do Noah e sua companheira de jornada 💙