O desenvolvimento no autismo não é linear

Se você convive com uma criança autista, provavelmente você já viveu isso: dias em que tudo parece fluir, seguidos de fases em que habilidades que pareciam conquistadas parecem “sumir”.

Quando isso acontece nós sempre nos questionamos: “será que ele regrediu?”, “será que eu fiz alguma coisa errada?”

Entender que o desenvolvimento não acontece em linha reta, e que no autismo, isso é ainda mais evidente, é fundamental para sentirmos menos culpa e mais segurança.

🤔 O que significa desenvolvimento não linear?

Desenvolvimento não linear significa que a evolução não acontece de forma constante, crescente e previsível. Em vez de uma linha reta sempre subindo, o desenvolvimento acontece em:

  • avanços,

  • pausas,

  • saltos,

  • períodos de reorganização,

  • e até aparentes retrocessos.

E isso é parte natural do processo.

🧠 Por que no autismo isso é ainda mais evidente?

No autismo, o cérebro processa o mundo de forma diferente.

O desenvolvimento acontece em várias áreas ao mesmo tempo (comunicação, sensorial, emocional, social, motora), e nem sempre essas áreas evoluem juntas.

Alguns fatores que influenciam essas oscilações:

  • Sobrecarga sensorial
    Quando o corpo está sobrecarregado, habilidades que já existiam podem ficar temporariamente indisponíveis.

  • Reorganização neurológica
    Às vezes, o cérebro está trabalhando intensamente em uma nova habilidade, e outras parecem “parar”. Isso é reorganização, não regressão.

  • Exigências do ambiente
    Mudanças na rotina, escola nova, novas demandas sociais ou emocionais exigem muita energia interna.

  • Comunicação em construção
    Quando a criança ainda está aprendendo a se expressar, comportamentos podem aparecer no lugar da linguagem.

🚽 O desfralde como um exemplo claro de desenvolvimento não linear

O processo de desfralde é um dos melhores exemplos para entendermos, na prática, como o desenvolvimento não linear funciona.

No início, a criança:

  • parece não entender o processo;

  • faz xixi e cocô na roupa repetidas vezes;

  • não avisa;

  • não demonstra consciência corporal clara.

O processo costuma ser longo, cansativo e, muitas vezes, frustrante para nós pais. Dá a sensação de que nada está funcionando e, em muitos momentos, dá até vontade de desistir.

Mas o que muitas vezes não enxergamos é que, enquanto parece que a criança “não está aprendendo”, o cérebro está trabalhando intensamente.

Para que o desfralde aconteça, a criança precisa integrar várias habilidades ao mesmo tempo:

  • perceber os sinais internos do corpo;

  • entender o que aquela sensação significa;

  • associar a sensação ao banheiro;

  • interromper o que está fazendo;

  • lidar com a transição;

  • seguir uma sequência de ações;

  • se regular emocionalmente.

No autismo, essas habilidades não amadurecem todas juntas. Elas vão sendo construídas aos poucos, internamente, mesmo que isso ainda não apareça no comportamento.

E então, muitas vezes, acontece algo que parece “mágico”: de repente, a criança entende, assimila o processo e os acidentes diminuem ou desaparecem.

Isso não é mágica. É integração neurológica. O aprendizado estava acontecendo o tempo todo,apenas não estava visível ainda.

📈 Avançar, pausar e recomeçar faz parte

Muitas vezes, o que parece um retrocesso é apenas o corpo dizendo: “Eu preciso de um tempo para integrar tudo isso.”

Uma criança pode:

  • falar mais em uma fase e menos em outra;

  • ficar mais independente e depois precisar de mais ajuda;

  • se auto regular melhor por um tempo e depois ter crises mais frequentes.

O que foi aprendido não se perde, apenas pode ficar temporariamente inacessível.

E esse é um dos pontos mais difíceis de confiar: o desenvolvimento não para só porque não estamos vendo resultados imediatos.

O cérebro continua trabalhando, integrando, organizando e criando novas conexões.

🫶🏻 O papel do adulto nos períodos de “queda”

Quando a criança parece “andar para trás”, o que ela mais precisa não é de cobrança, mas de segurança.

Algumas atitudes que fazem toda a diferença:

  • manter a rotina o mais previsível possível;

  • reduzir exigências temporariamente;

  • oferecer mais apoio emocional;

  • reforçar o que a criança já consegue;

Cabe a nós, pais, termos a sensibilidade de perceber essas fases e oferecer o suporte que a criança precisa.

✨ Celebrar o caminho, não só o resultado

Quando aprendemos a olhar para o desenvolvimento como um processo, tudo muda.

Passamos a:

  • valorizar pequenas conquistas;

  • respeitar os dias difíceis;

  • entender que pausa também é avanço;

  • confiar mais no processo.

O desenvolvimento não é linear, ele é vivo e dinâmico.

Com acolhimento, constância e respeito, ele acontece, talvez não da forma que imaginamos, mas da forma que a criança consegue.


Com carinho,
Michele Leite
Mãe do Noah e sua companheira de jornada 💙