3 coisas que parecem birra, mas não são no autismo

Um dos desafios de quem convive com uma criança autista é lidar com comportamentos que, à primeira vista, parecem birra ou falta de limites.

Mas a verdade é que, no autismo, muitos comportamentos não são escolhas conscientes. Eles são respostas do corpo e do cérebro a situações que são difíceis de processar naquele momento.

Neste artigo, vamos falar sobre 3 situações muito comuns do dia a dia e entender o que a criança está tentando nos comunicar com esses comportamentos.

1️⃣ Dificuldades em momentos de transição

Alguns exemplos de situações que costumam ser interpretadas como birra:

  • não querer sair do parquinho;

  • não aceitar parar uma brincadeira;

  • resistir a ir embora de um lugar;

  • chorar ao trocar de atividade;

No entanto, no autismo, esses comportamentos não acontecem por desobediência, mas estão diretamente ligados à dificuldade que muitas crianças autistas têm em lidar com transições.

O que está por trás:

  • dificuldade em lidar com mudanças;

  • foco intenso na atividade atual;

  • dificuldade em compreender o tempo;

  • insegurança diante do “o que vem depois”.

O cérebro autista precisa de previsibilidade para se organizar. Quando a mudança acontece de forma abrupta, o corpo entra em alerta e a crise aparece.

👉 Não é birra. É dificuldade de reorganização.

2️⃣ Explosões emocionais aparentemente “sem motivo”

Choros intensos, gritos ou irritação que parecem surgir “do nada” também costumam ser vistos como birras. Mas, na maioria das vezes, isso é sobrecarga sensorial ou emocional acumulada.

O que está por trás:

  • excesso de estímulos (sons, luzes, pessoas, informações);

  • cansaço físico e mental;

  • esforço constante para se regular;

  • dificuldade em expressar desconforto.

A criança pode estar “se controlando” há horas. Quando o corpo não aguenta mais, e a explosão acontece.

👉 Não é birra. É o corpo pedindo socorro.

3️⃣ Recusar algo que antes aceitava

Outro comportamento muito comum é a criança:

  • se recusar a fazer algo que já fazia;

  • rejeitar uma roupa, comida ou atividade antes aceita;

  • parecer “incoerente” no que quer ou não quer.

Isso costuma gerar muita confusão e frustração em nós, pais.

O que está por trás:

  • mudanças no processamento sensorial;

  • cansaço emocional;

  • fases de desenvolvimento; 

  • necessidade maior de controle para se sentir segura.

O fato de a criança já ter conseguido fazer algo antes não significa que ela consiga fazer sempre, em qualquer contexto.

👉 Não é birra. É variação de capacidade.

A criança tem a habilidade, mas nem sempre tem acesso a ela, dependendo do estado do corpo e do cérebro.

🔎 O que todas essas situações têm em comum?

Todas elas indicam que:

  • a criança está desregulada;

  • o ambiente está exigindo mais do que ela consegue oferecer;

  • o sistema nervoso está sobrecarregado.

E uma criança desregulada não aprende, não negocia e não obedece. Ela precisa de ajuda para se reorganizar.

💡 O que ajuda nesses momentos?

Algumas atitudes podem fazer toda a diferença e proporcionar mais bem-estar:

  • antecipar mudanças;

  • reduzir estímulos;

  • oferecer previsibilidade;

  • usar linguagem clara e visual;

  • validar o sentimento antes de conduzir;

  • ajudar a regular antes de exigir comportamento.


No autismo, o comportamento é, muitas vezes, uma forma de comunicação. Nem tudo que parece birra é birra.

Quando aprendemos a enxergar o que está por trás dessas atitudes nós começamos a caminhar junto com os nossos filhos.

E é nesse caminho de compreensão, acolhimento e suporte que a criança vai cada vez mais se sentindo segura, fortalecendo o vínculo e a confiança e evoluindo dia após dia, um passo de cada vez.

Com carinho,
Michele Leite
Mãe do Noah e sua companheira de jornada 💙