Por que forçar costuma dar errado no autismo

Quando uma criança autista não faz algo que esperamos, não colabora, não responde, não obedece, não acompanha, é muito comum que o adulto tente forçar: insistir, repetir, pressionar, acelerar, etc.

Isso geralmente nasce de boas intenções, queremos ajudar, ensinar, fazer a criança avançar. Mas, no autismo, forçar quase nunca leva ao aprendizado. Pelo contrário, na maioria das vezes leva a mais resistência, mais estresse e mais sofrimento.

Neste artigo, vamos entender por que isso acontece e o que realmente ajuda no desenvolvimento de nossos filhos.

🛡️ Forçar ativa o modo de defesa, não o de aprendizagem

O cérebro humano aprende quando se sente seguro. Quando o corpo entra em estado de ameaça, o cérebro muda de modo.

No autismo, esse limiar de ameaça costuma ser ainda mais baixo. Pressão, insistência excessiva, comandos repetidos ou exigências acima do que a criança consegue acessar naquele momento, podem ativar o sistema de defesa.

Quando isso acontece, o corpo entra em modo de sobrevivência e a criança responde com luta, fuga e/ou congelamento.

 Um cérebro em defesa não aprende, ele apenas tenta sobreviver àquela situação.

🧠 Forçar ignora a variação de capacidade

Um ponto essencial no autismo é entender que capacidade não é constante. O fato de a criança saber fazer algo não significa que ela consiga fazer sempre. 

Muitas vezes, quando a criança está cansada, sobrecarregada ou desregulada, ela não consegue acessar as capacidades que ela já possui. É como se o corpo dela estivesse nos dizendo que “agora eu não consigo”.

Forçar neste momento não ensina persistência, ensina o cérebro a associar a tarefa ao sofrimento.

✋🏻Forçar aumenta rigidez e oposição

Muitas vezes, a resistência aumenta porque houve força.

No autismo, a rigidez costuma ser uma estratégia de proteção. Quando a criança sente que perdeu o controle, ela tenta recuperar esse controle dizendo “não”, fugindo ou se fechando.

Quanto mais o adulto força, mais o corpo da criança se fecha. Não é desafio, é autoproteção.

💬 Forçar quebra a comunicação

No autismo, o comportamento é uma forma de comunicação. Quando forçamos, deixamos de escutar o que o corpo da criança está dizendo.

A mensagem pode ser:

  • “estou cansado”

  • “está difícil demais”

  • “meu corpo não está organizado”

  • “não entendi”

  • “está sensorialmente desconfortável”

Forçar silencia essa comunicação, mas não resolve a causa. É muito importante termos consciência disso e respeitar os nossos filhos, saber ouvi-los mesmo quando não há a fala, parar de exigir quando eles literalmente estão incapazes de entregar.

🧩 O que funciona melhor do que forçar?

1. Ajustar a exigência ao estado da criança

Se perguntar mais “o que ela consegue fazer agora?” e menos “o que ela sabe fazer”.

2. Regular antes de ensinar

Se o corpo está agitado ou em alerta, primeiro regulamos através de movimento, pausas, previsibilidade e acolhimento. Depois, ensinamos.

3. Tornar as coisas mais previsíveis

Sequências visuais, antecipação e clareza reduzem a resistência sem precisar forçar.

4. Oferecer escolhas possíveis

Ao invés de dar comandos, você pode oferecer escolhas para que a criança se sinta no controle da situação, isso reduz a necessidade de oposição.

No lugar de: “vai colocar o tênis!”, você pode dizer: “Qual tênis você quer colocar, o branco ou o azul?”

5. Respeitar o tempo do cérebro

Aprendizado no autismo acontece com muita repetição, constância, segurança e confiança e não sob pressão. Pode demorar mais do que você imagina, mas ele acontece.

💔 Forçar pode gerar resultado rápido, mas não duradouro

Às vezes, forçar até funciona no momento. A criança faz, mas à custa de estresse.

O preço pode aparecer depois:

  • mais resistência no futuro;

  • aversão à atividade;

  • aumento de crises;

  • perda de confiança no adulto.

Ensinar com respeito não é “passar a mão na cabeça”, é entender como o cérebro aprende e respeitar os limites da criança.

Quando o adulto ajusta o ambiente, o tempo e a forma, a criança aprende com mais segurança, menos medo e muito mais sentido.

Com carinho,
Michele Leite
Mãe do Noah e sua companheira de jornada 💙