Pequenas vitórias que ninguém vê, mas que mudam tudo
Por que reconhecer avanços sutis no autismo fortalece o desenvolvimento da criança e sustenta emocionalmente toda a família.
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Se você convive com uma criança autista, provavelmente já viveu cenas como:
não querer ir embora do parquinho;
resistir a encerrar uma brincadeira para almoçar;
ficar muito agitada quando precisa trocar de atividade;
entrar em crise ao ouvir um “agora acabou”.
Esses momentos são comuns no dia a dia de muitas famílias atípicas. Na maioria das vezes, eles não acontecem por birra, desobediência ou “teimosia”, mas estão relacionados à forma como o cérebro autista processa mudanças, estímulos e previsibilidade.
Neste artigo, vamos entender por que as transições costumam ser tão desafiadoras para muitas crianças autistas e como podemos ajudá-las a passar por esses momentos com mais segurança e menos sofrimento.
Transições são todas as mudanças de uma atividade para outra, de um ambiente para outro ou até de um estado para outro.
Alguns exemplos comuns:
sair do parquinho para ir para casa;
parar de brincar para almoçar;
desligar a TV;
sair de casa para ir à escola;
trocar de roupa;
ir para o banho.
Para nós, adultos, essas mudanças costumam ser automáticas. Para muitas crianças autistas, no entanto, elas exigem um grande esforço interno de reorganização.
1️⃣ Dificuldade com previsibilidade
Muitos cérebros autistas tendem a funcionar melhor em contextos previsíveis.
Em muitas crianças, mudanças abruptas podem fazer o corpo entrar em estado de alerta, o que aumenta a chance de reações como resistência, fuga, choro ou crises.
Isso não acontece sempre e nem da mesma forma, mas é um padrão bastante comum.
2️⃣ Foco intenso na atividade atual
Muitas crianças autistas entram em estados de foco profundo e isso pode ser extremamente organizador para o cérebro.
Interromper esse foco de forma repentina pode ser altamente desorganizador, exigindo uma transição interna que o cérebro ainda não consegue fazer com facilidade.
3️⃣ Sobrecarga sensorial e emocional
Transições frequentemente envolvem mudança de estímulos: sons, luzes, pessoas, cheiros e demandas.
Para crianças com sensibilidade sensorial, essa troca pode gerar desconforto imediato.
4️⃣ Dificuldade em perceber o tempo
Conceitos como “daqui a pouco”, “já já” ou “mais tarde” são abstratos.
Para muitas crianças autistas, o tempo precisa ser concreto e visível para fazer sentido.
5️⃣ Comunicação em desenvolvimento
Mesmo crianças verbais podem, em momentos de desregulação, não conseguir acessar uma comunicação funcional.
Nessas situações,o comportamento pode surgir como uma forma alternativa de comunicação.
Antes de falar do que ajuda, é importante reconhecer o que costuma piorar a situação:
avisar em cima da hora;
mudar de atividade sem explicar;
apressar a criança;
usar ameaças ou punições;
insistir quando o corpo já está desorganizado.
Essas estratégias, embora comuns, tendem a aumentar a insegurança e a resistência em muitas crianças.
Transições são mais possíveis quando a criança está dentro de um nível mínimo de regulação emocional. Quando o corpo já está sobrecarregado, a capacidade de transicionar diminui significativamente.
1️⃣ Antecipar sempre que possível
Avisar com antecedência faz muita diferença.
Exemplo: “Mais cinco minutos de parquinho, depois vamos embora.”
Repetir o aviso ajuda o cérebro a se preparar para a mudança.
2️⃣ Tornar o tempo visível
Sempre que possível, transforme o tempo em algo concreto:
contagem regressiva;
relógio ou timer visual;
sequência visual de atividades, etc.
Para muitas crianças, ver o tempo é mais eficaz do que apenas ouvi-lo.
3️⃣ Usar sempre as mesmas palavras
Consistência gera segurança. Escolher frases-chave e usá-las sempre da mesma forma ajuda a criança a entender o que está acontecendo.
Exemplos:
“Faltam cinco minutos.”
“Última vez.”
4️⃣ Mostrar o que vem depois
A resistência à transição muitas vezes diminui quando a criança sabe qual será o próximo passo.
Exemplo: “Agora vamos guardar, depois vamos almoçar.”
Saber o que vem depois reduz a ansiedade.
5️⃣ Ajudar na transição física e emocional
Algumas crianças precisam de ajuda concreta para sair de uma atividade:
segurar a mão;
ser carregada até o próximo ambiente;
levar um objeto de transição.
Isso não é “ceder”, é dar suporte ao sistema nervoso.
6️⃣ Validar o sentimento antes de conduzir
A validação emocional ajuda a reduzir a intensidade da desorganização e aumenta a sensação de segurança.
Frases possíveis:
“Eu sei que você queria ficar mais.”
“É difícil parar quando está divertido.”
Validar não elimina todas as dificuldades, mas ajuda a criança a se sentir compreendido.
As transições não costumam ficar fáceis de um dia para o outro.
Com repetição, previsibilidade e suporte adequado, muitas crianças passam a lidar melhor com esses momentos, onde um momento de conflito pode ser transformado em um momento de cuidado.
Dificuldade nas transições, na maioria das vezes, não é birra, é o cérebro pedindo mais tempo e mais apoio para se reorganizar. É muito importante que nós pais entendemos isso.
Transições respeitosas não eliminam todos os desafios, mas podem reduzir o sofrimento, fortalecer o vínculo e favorecer o desenvolvimento emocional.
Com carinho,
Michele Leite
Mãe do Noah e sua companheira de jornada 💙