Falta de noção de perigo no autismo: por que acontece e como manter a criança segura

Entenda os motivos por trás da dificuldade de reconhecer riscos no autismo e aprenda estratégias práticas e acolhedoras para garantir segurança.

 Falta de noção de perigo no autismo: por que acontece e como manter a criança segura

Uma das maiores preocupações de nós, pais atípicos, é a segurança dos nossos filhos. É muito comum ouvir relatos de crianças e jovens autistas que:

Isso não acontece por descuido, “desobediência” ou teimosia.

A falta de noção de perigo está diretamente ligada ao funcionamento neurológico e sensorial do autismo, e entender isso é o primeiro passo para oferecer mais segurança e autonomia.

🧠 Por que muitas pessoas autistas têm pouca noção de perigo?

Vários fatores se combinam, e também é importante lembrarmos que cada criança é única. Mas há cinco explicações principais:

1️⃣ Dificuldade em prever consequências

O cérebro autista tende a processar o mundo no presente, com menos foco em “o que pode acontecer depois”. Lembrando que trata-se de um funcionamento cognitivo diferente e não falta de inteligência.

Isso faz com que situações perigosas não sejam percebidas como risco imediato. Por isso, frases como “cuidado que você pode cair” não fazem sentido concreto para a criança, ela não consegue visualizar a consequência futura.

2️⃣ Déficits nas funções executivas

As funções executivas incluem habilidades como:

Muitas crianças autistas têm imaturidade nessas áreas. Isso faz com que ações impulsivas aconteçam antes que o cérebro consiga avaliar se é perigoso.

3️⃣ Busca sensorial

Para muitas crianças autistas, correr, pular, girar, tocar e explorar são formas de regular o corpo. A exploração sensorial pode ser tão intensa que a criança não percebe o risco envolvido.

Exemplo: Escalar um móvel alto da casa buscando estímulos vestibulares.

4️⃣ Processamento lento de sinais sociais

Sinais típicos de alerta, como expressões faciais de preocupação, entonação de voz e até gritos, podem ser interpretados de forma diferente no autismo.

A criança pode não perceber o medo do adulto como um aviso de perigo. Ela pode pensar: “Ele está gritando, mas não sei por quê.”

5️⃣ Dificuldade em generalizar

Mesmo que a criança aprenda que “o fogão é quente”, ela pode não transferir essa informação para outra situação como por exemplo: churrasqueira, água quente, ferro de passar, etc.

Isso é uma característica muito comum do TEA: aprender algo em um contexto não significa que ela entende em todos os contextos.

💡 Como proteger uma criança autista sem gerar medo ou ansiedade?

A segurança no autismo precisa ser planejada, não improvisada. Aqui estão algumas estratégias:

1️⃣ Ensine segurança de forma concreta (não abstrata)

Autistas aprendem melhor com:

❌ “Cuidado, isso é perigoso.” - Essa frase é muito abstrata.

✅ “Não toque aqui. Está quente e pode queimar a sua mão.” - Clara, direta e concreta.

2️⃣ Use histórias sociais específicas

Histórias sociais funcionam muito bem para ensinar algumas situações, como por exemplo:

Elas criam previsibilidade, e isso reduz comportamentos impulsivos.

3️⃣ Crie ambientes seguros de verdade

Não adianta apenas orientar verbalmente, o ambiente precisa estar preparado.

Isso não é superproteção. É adaptação.

Da mesma maneira que adaptamos a nossa casa quando temos um bebê, como por exemplo colocamos trancas nas gavetas, tampas nas tomadas, etc; é fundamental que também façamos as adaptações necessárias para que essa criança autista esteja num ambiente seguro. 

4️⃣ Pratique habilidades de forma guiada

Crianças autistas aprendem muito observando e repetindo com apoio.

Segue um exemplo de como podemos ensinar a criança a atravessar a rua:

Praticar habilidades de forma guiada serve para muitas situações diferentes do nosso dia a dia, como por exemplo: subir e descer escadas, uso de objetos cortantes ou pontiagudos, aproximar-se de fogão ou objetos quentes, usar bicicletas ou patinetes, etc.

5️⃣ Use palavras-chave curtas e sempre iguais

O autismo responde muito bem à consistência. Escolha uma palavra ou frase e use SEMPRE a mesma:

Quanto menos palavras, mais eficácia.

6️⃣ Reforce comportamentos seguros

Reforço positivo é mais eficaz do que alerta negativo. Se a criança esperou, segurou sua mão, ficou perto, celebre!

“Uau, você esperou! Muito bem!”

“Você está de parabéns, segurou a mão da mamãe!”

Isso fortalece o comportamento seguro.

7️⃣ Trabalhe autonomia de forma gradual

Ensinar sobre perigo não significa impedir a autonomia, significa preparar a autonomia, passo a passo, de acordo com a maturidade da criança:

Segurança e independência não são opostos: um prepara o caminho para o outro.

A segurança no autismo nasce da previsibilidade, da clareza e da consistência. E quando a criança se sente segura, tudo flui: autonomia, comunicação, vínculo e confiança.


Com carinho,
Michele Leite
Mãe do Noah e sua companheira de jornada 💙

Você também pode gostar de ler

Desfralde no Autismo: Nossa Jornada com o Noah

Em 12/09/2025 às 10h24 - Atualizado em 12/09/2025 às 10h25